
Chico Buarque durante a gravação do documentário “Vai Passar”
1968 foi um ano de muitas mudanças em todo o mundo e ficou conhecido por muitos como “A era de aquário”. Foi um período em que as drogas passaram a ser uma de tentativa de se libertar. Em que a mini-saia mexia tanto com a liberdade quanto com o estilo da época. Esse período, enlouquecedor para o regime político, fez surgir uma série de “sábios”. Poetas que ousavam em suas palavras, mexendo com o imaginário social. Por ter consagrado nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque e por atingir mais facilmente a população, a música foi um destaque na época.
Francisco Buarque de Holanda conta sobre o que vivenciou no período da ditadura. No documentário “Vai Passar”, dirigido por Roberto de Oliveira, fala abertamente sobre o assunto. Chico começa o documentário falando: “Não, eu não guardo mágoa nenhuma. Não me posiciono como vítima de coisa alguma”.
O cantor conta sobre o decreto do AI-5, quando a liberdade de imprensa foi vetada. A ditadura prendeu o compositor e, após soltá-lo, deixou um aviso para que ele não deixasse o Rio de Janeiro sem autorização de um militar. Ele tinha marcado uma viagem para Cannes (França) e outra para Roma (Itália). “Alguns dias entre o AI-5 e a minha partida, a gente não tinha muita notícia de nada. Via uma boataria solta. A gente se encontrava nos bares, e tal. Fulano foi preso! Fulano foi preso! Não, não foi”, recorda.
Em depoimento, Chico Buarque afirma que considera a ditadura injusta. “A verdade é o seguinte… A ditadura encheu bastante o meu saco, mas eu também ‘enchi’ o saco deles”, comenta. Os anos que passaram, devido ao golpe de 64, deixaram muitas seqüelas, e o próprio compositor fala da repressão e das torturas.
Chico diz que não foi torturado e conhecia pessoas que foram exiladas. Caetano, seu amigo, foi exilado na Inglaterra por ter atacado o governo. Afirma que, quando foi para Roma, não era comum encontrar brasileiros. Quando os via, era difícil saber de que lado estavam. Segundo ele, havia sempre uma desconfiança.
Em 1967, Chico Buarque ficou em terceiro lugar no III Festival de Música Popular Brasileira com a música “Roda Viva”. E, em 1968, em segundo lugar com a música “Benvinda”. No mesmo ano, a música “Sabiá”, cantada por ele e Tom Jobim, ganhou o Festival Internacional da Canção. Foi vaiada, apesar de ficar em primeiro lugar. Os brasileiros queriam que a música “Pra Não Dizer Que Não Falei De Flores”, de Geraldo Vandré, ganhasse o festival, mas esta conseguiu o segundo lugar.
Chico escreveu várias canções julgadas impróprias pelo governo, entre elas está “Cálice”, escrita com Gilberto Gil, e “Vai levando”, parceria com Caetano Veloso. A imprensa criou uma divisão e, após 1968, Gil, Caetano e Chico seguiram caminhos diversos.
Quando se pergunta para as pessoas que viviam na época, como eram os cantores, elas têm opiniões muito semelhantes. Falam que Caetano e Gil eram “muito doidos” e que Chico era mais sutil com as palavras. Talvez, por isso, ele não tenha sofrido tão diretamente as conseqüências da época. Mas é possível identificar as mudanças em sua música. Essa diferença de ‘doido’ para ‘sutil’ pode ser devido ao Tropicalismo ser mais inovador.
O Tropicalismo surgiu desvinculando um Brasil antigo que ouvia bossa nova, para um novo, ligado ao popular brasileiro. Segundo Chico Buarque, esse novo estilo musical era muito diferente do que agradava a ele, Gilberto Gil e Caetano Veloso, um ano antes. Ele acredita que isso se deve ao fato serem muito influenciados por Tom Jobim e outros cantores e compositores. “Eu não estava preparado para isso” disse em entrevista a uma rádio de Roma.
Havia antes do ano das transformações uma sociedade acostumada com a vida predestinada. Era um mundo regido pelos genitores e eles decidiam o futuro de seus procedentes. Desta data em diante, o mundo foi dançando conforme a música, cantando como manda o instinto de libertação.
1968 foi o início das repressões e das revoluções. Foi uma preparação para os 10 anos que viriam. Depois dessa data, o general Emílio Garrastazu Médici entrou no poder. Esse período ficou conhecido como “os anos negros da ditadura”.